Por que foi assim?

Conversando com um amiga por esses dias, reparei o quanto ela comparava a sua história com a de outras pessoas, demonstrando uma certa consternação, pelo que se deu em sua vida até aqui, interpretando a caminhada e a chegada de conhecidos muito mais favorecidas do que as dela.

Não estou me referindo ao tema meritocracia. A minha reflexão quer se dirigir às nossas necessidades pessoais, independente da natureza que seja e das facilidades ou desvantagens para atendê-las, em contrapartida, o quanto a comparação das mesmas, pode ser massacrante, para quem guiar as escolhas por meio disso.

Acredito já haver consenso, que o sofrimento é uma experiência individual e que tem um sentido próprio para cada pessoa. Mas ainda percebo não estar tão claro que a felicidade também, o que o outro está vivendo e o levando à plenitude, pode não me preencher, nem a você. Temos necessidades diferentes.

Por exemplo, o formato “família margarina”, com certeza, não trará a mesma satisfação a  todas as mulheres. Uma vez ouvi de uma pesquisadora renomada que a libido dela é intelectual, ela se casou, mas não quis ter filhos e não tinha nenhum remorso ou arrependimento, continuava sentindo ter feito a escolha certa para ela. E não se tratava de uma questão de egoísmo ou insensibilidade da parte dela, como a sociedade ainda costuma rotular. Pelo contrário, ela chama a atenção, justamente, pela sensibilidade  e generosidade, que demonstra em suas relações.

thanksgiving-wallpaper-1366x768

Eu penso que essa sensação de fracasso ou de inadequação, ao não alcançar algo, precisa ser conferida, se não se relaciona com um equívoco na seleção do que é supervalorizado pelas pessoas à nossa volta e elencado como meta própria de vida, em detrimento do desejo real. Pois, quando tentamos nos enganar, indo em busca desse modelo social e ele de fato não se adequa a nós, o melhor que podemos fazer por nós, é nos sabotarmos, porque se vier a dar certo, vamos nos decepcionar por demais, exceto, se a inconsciência for tamanha, que somente se dê conta da enganosa satisfação, em fazer parte do hall, dos que alcançaram o “ideal”.

“Eu me perdi de mim”

Mais uma das frases marcantes no consultório, acompanhada de um certo desespero da autora, no sentido de “eu deixei de ser quem eu era”, sem derivar de uma mudança lapidada por si, mas coagida pelas circunstâncias e intromissões de outros.

Isso é tão desanimador, há como se realizar não sendo quem se é. Podemos ser aceitos e amados, mas nessas condições, não será por quem somos. Essa falácia será que preenche. Dependendo do contexto, pode ser uma das formas de sobrevivência encontrada, porém, vendo outras possibilidades ou se retirando desses meios condicionantes, será que não vale a pena arriscar.

Percebo pessoas em plenitude com o que mais repreendiam no outro ou descobrindo habilidades que jamais se viam capazes, quando conseguem se desvincilhar das doutrinações recebidas, críticas alheias e suas auto repreensões.

Convivendo, atualmente, com a minha sobrinha caçula, que tem 3 anos de idade, identifico mais claramente o quanto nós adultos, do círculo de contato dela, podemos interferir em seu processo de identidade. Ela nos observa, pergunta, repete, mas também transgride, que bom! Sempre se anima quando nós a apresentamos a algo novo, mas ela também tem muito a nos desvelar. São nítidas as mudanças que já promoveu em nossa dinâmica familiar, tem o seu jeitinho único de ser, super carinhosa, ao mesmo tempo, sabe bem o que quer. Como é divino descobri-la, Amélie!

WhatsApp Image 2017-10-04 at 11.01.35Amélie, seja quem você veio para ser, dê abertura ao que você carrega dentro de si e eu estarei, com certeza, na platéia, de olhos bem abertos e ouvidos bem atentos, contemplando o seu desabrochar e a sua alegria de viver. Eu me despeço das minhas expectativas e tentativas de correspondê-la aos meus desejos.

Seja, Amélie! Seja, você mesma!

E quando precisar de mim, estarei aqui.

Que peso você carrega?

Faço essa pergunta no sentido literal mesmo, o que seu corpo vem carregando.

Percebe alguma região mais dolorida, enrijecida, dormente, sobressaltada.

A dor é perfurante, queima, aperta. Como incomoda?

A respiração flui livremente ou é intercortada. Preenche ou precipita-se.

Tudo o que vivemos, sentimos e pensamos repercute em nosso corpo. Não há como fugirmos disso, assim como, o contrário.

Mente atordoada, corpo retesado. Pensamentos leves, músculos relaxados.

Alongando-o, o corpo relaxa, será que alargando as crenças, não funcione também com o nosso cabeção?

Certo é que, corpo e mente funcionam com mais liberdade, fluidez, quando não há retensão.

Se não está dando conta de aliviar os pensamentos, por que não fazer o caminho inverso, soltar o esqueleto e deixar a cuca tendo que se reinventar. Nada como uma massagem relaxante, dança, yoga, para se experimentar isso. Eu não dispenso e recomendo. 🤗

Como você está?

Hoje, eu faço essa pergunta para você e estou disponível para ouvir a sua resposta, qualquer que ela seja. Podemos juntas(os) rir ou chorar.

Não vou me antecipar a sua resposta nem precisa que você responda no automático.

O por que disso? Hoje fui prestigiar os produtos da minha irmã numa feira de artesanato. E quando eu estava me preparando para me despedir, as lindas bolsas em tecidos da Vanessa Vintage atraíram uma determinada cliente.

A rapidez da compra me deixou surpresa e o jeito desconcertado que a senhora queria levar a bolsa alaranjada foi chamando a atenção. Não demorou muito para ela desabafar: “Eu não estou bem, meu filho mais velho morreu tem 6 dias e o casamento do mais novo ocorreu há 7. Festa e tristeza. E eu fiquei sozinha”.

Minha mãe imediatamente tentou consolá-la e eu só consegui expressar o meu pesar. Ela não se demorou, já foi para a outra banca, estava bastante eufórica.

No consultório, me deparo com muitas história difíceis, mas aqueles minutos me trouxeram outras reflexões, direcionadas as nossas interações sociais. O quanto estamos presentes na nossa vida cotidiana e podemos não só nos percebermos, mas também o outro.

Quando essa senhora desabou o tamanho da dor de cabeça que carregava, esqueci da dorzinha de cabeça que estava me dando, por conta de ter passado do horário programado para almoçar. Dei-me esse intervalo na autoconsciência, para encontrá-la em sua dor,  depois, precisou uma tonteira gritar pela minha presença, para que eu me voltasse à minha necessidade e fosse almoçar.

Essa é a dinâmica da vida, dentro e fora, mundo interno e externo, eu e o outro.

Você não entendeu, querida!

Esta semana aconteceu um fato curioso comigo. Pontuei de maneira mais enfática uma discordância sobre a fala de um conhecido. Não costumo me manifestar nas postagens de outras pessoas, mas dessa vez, por se tratar de um assunto em torno da minha área profissional, me senti compelida a fazê-lo, por um compromisso com a minha dedicação e a de tantos outros colegas de profissão, além de desmistificar alguns entendimentos equivocados, salvaguardando os valores da Psicologia.

Mas o que me chamou mais a atenção, não foi o comentário eivado de uma mensagem sublimar pejorativa, onde havia uma intenção, mesmo que inconsciente do autor, de equiparar ou até inferiorizar uma sessão de um psicólogo com ou a uma conversa entre amigos. Pois, se tratando disso, entendo como a reprodução de um inconsciente coletivo.

O meu descontentamento maior se deu pela linha de pensamento que conduziu a sua reatividade. Foi tipo isto: “Você não entendeu, querida!”. E ainda veio com uma explicação simplificada de um conceito que só podia ser óbvio para mim, por ser psicóloga, dando a entender que eu não o conhecia ou que tinha o entendimento errado.

rEle provavelmente não deve ter se dado conta, pois, geralmente, é assim que acontece. Envolve questões de ego, mas também pode estar embutida uma postura subliminar do machismo, onde o homem, para se sobressair numa dada situação em que a mulher de alguma forma o confrontou, cai na esparrela de insinuar que ela que distorceu ou não compreendeu direito. Valendo-se de uma estratégia de supremacia masculina, que visa colocar a mulher na condição de burra ou louca, para não reconhecer o próprio deslize ou por se sentir desconfortável com a capacidade feminina.

Fiz esta postagem, por acreditar que jogando luz em situações como essa, que elas vão, cada vez mais, deixando de existir. Afinal, somos todos homo sapiens! 🤓

 

Leitura sugerida: MM360 explica os termos gaslighting, mansplaining, manterrupting e bropriating.

Entre nesta dança!

Ontem, no meu consultório, realizei mais um Workshop Aqui e Agora. Foi um condensado das 6 edições anteriores. Iniciei esse trabalho em fevereiro de 2016, ainda sem muito formato, mas com um desejo legítimo de percorrer, junto com quem se interessasse, o caminho de volta para casa, para o nosso coração, para a pessoa que somos, mas que a perdemos no percurso das nossas escolhas ou falta delas, e pelas responsabilidades.

Eu escolhi esse nome, por ter haver com a abordagem da psicologia que eu me aprofundei, a Gestalt-terapia, assim como, com a proposta que eu me dispunha a explorar, a presença viva, espontânea e integrada.

Posso dizer que os encontros são compostos de introspecções e de brincadeiras, de gente grande, porque adulto também pode se permitir desenhar, fantasiar, dançar… E melhor que não seja da forma controlada como costumamos fazer. Sem buscar técnicas, porém com expressão.

No final, desse sétimo workshop, o qual já conquistou uma certa estrutura, surgiu espontaneamente a ideia de colocarmos um samba, pois o planejado era uma música celta. E foi ótimo! Muito melhor do que o planejado. Eu não sei sambar, dentro do que se convencionou que é o samba, mas saiu o meu samba. Assim como de cada uma das pessoas presentes e foi o que precisávamos.

Encerro dizendo que cada vez mais tenho tido a certeza que o despertar está no óbvio, no simples. Sendo o conhecimento também muito bom, mas se não o deixarmos nos entorpece com suas teorias, nem abandonarmos a grandiosidade da nossa criação intuitiva. Não menospreze e não se defenda do que parece infantil, informal, subjetivo demais, essa é mais uma das ciladas do ego, para o manter a margem de si mesmo. Acredite na sua sabedoria interna, ela te mostrará caminhos ainda inexplorados, que o convidam ao seu despertamento. “Perca a cabeça e chegue aos sentidos” (Fritz Perls).

Obs: Agradeço a presença dos participantes – Eva (conterrânea do Freud), Grazi, Ju, Tamires e Welbio (cameraman) – que contribuíram para que o nosso encontro fosse assim. 😊 🌻

Tem algum problema com o meu óculos?

Numa roda de conversa sobre Autoestima, organizada por mim e outras três colegas psicólogas, tivemos a contribuição de uma das pessoas presentes ter compartilhado sobre a dificuldade na infância, para lidar com “brincadeiras”, pelo fato de usar óculos.

No decorrer do relato, me veio a minha experiência, em comparativo com a dela. E posso dizer que tenho boas lembranças, não pelo fato de não terem surgido “brincadeiras”, mas, porque criei em torno do usar óculos, uma conotação positiva, relacionava com inteligência, intelectualidade. Então, não me ative às possíveis críticas recebidas.

O ideal seria que não precisássemos vivenciar esse tipo de situação, ou seja, que os adultos fornecessem melhores exemplos as crianças, de respeito às diferenças, daí provavelmente teríamos  uma sociedade mais respeitosa. Mas, infelizmente, esse tipo de postura não será totalmente extinguida, porque ela se refere a uma das formas existenciais de se lidar com as inseguranças, onde o inseguro escolhe alguém, de preferência, que represente alguma ameaça a ele, para tentar fazê-lo sentir uma insatisfação, maior que a dele.

Diante disso, como podemos nos manter blindados das possíveis repreensões à nossa imagem. Exemplificando, com a minha experiência, eu entendia o óculos como algo importante pra mim e que conferia algo que eu valorizava, então, eu tinha o antídoto necessário para não me contaminar com as visões depreciativas dos outros. Agora, o meu cabelo volumoso, que eu, por acontecimentos anteriores, tinha associado negativamente a uma inadequação, a mínima insinuação era suficiente para incitar o meu desconforto.

Então, ao indício de qualquer incômodo dessa natureza, atente-se aos significados atribuídos, por si ou resultantes de determinadas situações, e, sendo necessário, invista na desconstrução e ressignificação deles ou em atualizá-los. Depois disso, ninguém vai conseguir, com que você sinta, o que não existe nem faz sentido, dentro de você.

Obs: Não se trata de explanações sobre situações de bullying, racismo nem abuso moral, pois, nesses casos, combatemos com denúncias e repreensões aos ofensores. E, quanto ao meu cabelo, eu fiz as pazes com ele, hoje, simboliza força e presença. 💁🏻

O que você tanto esconde?

Hoje, li um texto do Nelson Mandela – “Brilho inconsequente” – que ecoou dentro de mim. E, a partir dele, me veio essa pergunta.

O texto fala que o nosso maior medo não é de sermos inadequados nem ignorantes, mas sim, da nossa sabedoria. E defende que não há nada de iluminado em se diminuir para que outras pessoas não se sintam inseguras perto de nós. Parte do pressuposto de que todos têm luz dentro de si e, quando a deixamos brilhar, ela libera outras pessoas a brilharem também.

Aliás, como essa falsa modéstia pode ser sinônimo de elevação espiritual. Ou melhor, como podemos equivaler a sabedoria ao desmerecimento de si e dos outros. Primeiro, por não se poder demonstrar o seu valor, ou ao menos ter, e, segundo, por não ver no outro. Isso não me parece nada evolutivo, muito menos gentil, mais se aproxima de um sadomasoquismo, usando-se de autoenganos e falsidades.

Eu já caí nessa armadilha e não foi nada bom pra mim nem para as pessoas ao meu redor, ainda criança percebi que tinha facilidade para fazer conexões com assuntos diferentes. Mas por influências cristãs, criei a crença de que não poderia ficar mostrando isso. Acabei por pôr em dúvida essa habilidade e a alimentar preconceitos por quem o fazia, gerando uma sensação de superioridade por não fazê-lo.

Nossa, quanta distorção e como isso atrasou a minha vida. Esconder uma aptidão, dá mais trabalho do que falsear ter uma. Só que chega uma hora ou você expande ou colapsa. Optei por expandir. E, impressionantemente, quando você começa a mostrar-se mais verdadeiramente, você convida o outro a também se revelar.

E não há porque se preocupar com inveja nem em representar ofensa ao outro, quando feito com amorosidade. Pelo contrário, inspira quem está por perto, sem ser tomado por inseguranças, desde que perceba potencialidades em todas as pessoas e tenha a compreensão de que a luz de um se soma à luz do outro, gerando pertencimento e maior alcance, ao invés de ofuscamentos.

Você usa gatilhos mentais?

Assisti a um vídeo esta semana sobre gatilhos mentais e fiquei impressionada, pelo quanto que manipulamos e somos manipulados, incitando as inseguranças e carências humanas, para que seja tomada a decisão favorável ao maior interessado.

Você já reparou que ao quererem persuadi-lo, muitas das vezes, usam expressões como: “Só existem x número de vagas e quando acabar, você perdeu”; “Inscreva-se e fará parte deste grupo seleto”…

Preste atenção, como esses argumentos são baseados em nosso medo de escassez, necessidade de pertencimento, desejo de se sentir especial. Ativando um comportamento inconsciente, impulsivo e, na maioria das vezes, imaturo, por nos remeter às nossas vulnerabilidades e as vivências da infância, afinal de contas, atua na área mais primitiva do nosso cérebro.

Então, não se trata de um consumo consciente, você toma uma decisão que aparentemente entendendo como sendo racional, mas é simplificada por esses gatilhos.

Isso me levou a grandes reflexões sobre a forma como divulgo o meu trabalho, pois esse tipo de recurso não combina com a minha proposta de convite à ampliação da consciência, e mesmo não tendo essa intenção de me beneficiar da inconsciência das pessoas, se não prestarmos bastante atenção, acabamos adotando muitas dessas expressões por tabela, devido já estarem tão naturalizadas em nossas relações.

E quando usamos conscientemente, na maioria das vezes, é pautado também no nosso medo, do fracasso, por exemplo. Daí, apelamos. Então, o melhor é revisitar as nossas crenças e sentimentos, que habitam atrás desses mecanismos de convencimento.

Essa mesma ideia também pode ser empregada em relacionamentos amorosos, hierárquicos… Podemos nos utilizar desses “impressionadores”, nas mais variadas formas e situações, em maior ou menor escala, mas quando nos atentamos para o seu uso e suas motivações, nos desencantamos e podemos escolher privilegiar a autonomia do outro e usufruir  da nossa autoconfiança.

O que você aprendeu com o seu pai?

Hoje, dia dos pais, me veio essa pergunta. Nesta fase da vida consigo identificar claramente o maior ensinamento que o meu pai me proporcionou. Na convivência com ele, percebendo os seus atos, compreendi o sentido de ser Leal.

Pai, você sabe ser leal como ninguém! Leal ao que acredita e às pessoas a quem se vincula. Aprendi com você a tentar ser coerente e a assegurar às pessoas de meu convívio, que quando me comprometo é de verdade, pode confiar.

Acredito que o aprendizado está sempre disponível, principalmente, quando se trata da nossa relação com os pais, isso engloba as paternidades presentes e ativas na educação dos filhos, como as ausentes, seja por escolha ou por falta dela, percalços da vida.

Conhecer a história dos nossos pais é muito importante para compreendê-los e nos entendermos. As vivências deixam marcas e impõem crenças, então não é à toa cada comportamento. E a ação deles remontam à nossa, seja na identificação ou na diferença.

Faz um tempo que decidi acolher a minha história familiar e a ter mais contentamento na relação com o meu pai, e posso dizer que ampliou enormemente as possibilidades de crescimentos pessoais e me trouxe ainda mais força para a vida.

Obs.: Na foto, sou eu e o meu pai, no meu aniversário de 3 anos. 🙂