Tem algum problema com o meu óculos?

Numa roda de conversa sobre Autoestima, organizada por mim e outras três colegas psicólogas, tivemos a contribuição de uma das pessoas presentes ter compartilhado sobre a dificuldade na infância, para lidar com “brincadeiras”, pelo fato de usar óculos.

No decorrer do relato, me veio a minha experiência, em comparativo com a dela. E posso dizer que tenho boas lembranças, não pelo fato de não terem surgido “brincadeiras”, mas, porque criei em torno do usar óculos, uma conotação positiva, relacionava com inteligência, intelectualidade. Então, não me ative às possíveis críticas recebidas.

O ideal seria que não precisássemos vivenciar esse tipo de situação, ou seja, que os adultos fornecessem melhores exemplos as crianças, de respeito às diferenças, daí provavelmente teríamos  uma sociedade mais respeitosa. Mas, infelizmente, esse tipo de postura não será totalmente extinguida, porque ela se refere a uma das formas existenciais de se lidar com as inseguranças, onde o inseguro escolhe alguém, de preferência, que represente alguma ameaça a ele, para tentar fazê-lo sentir uma insatisfação, maior que a dele.

Diante disso, como podemos nos manter blindados das possíveis repreensões à nossa imagem. Exemplificando, com a minha experiência, eu entendia o óculos como algo importante pra mim e que conferia algo que eu valorizava, então, eu tinha o antídoto necessário para não me contaminar com as visões depreciativas dos outros. Agora, o meu cabelo volumoso, que eu, por acontecimentos anteriores, tinha associado negativamente a uma inadequação, a mínima insinuação era suficiente para incitar o meu desconforto.

Então, ao indício de qualquer incômodo dessa natureza, atente-se aos significados atribuídos, por si ou resultantes de determinadas situações, e, sendo necessário, invista na desconstrução e ressignificação deles ou em atualizá-los. Depois disso, ninguém vai conseguir, com que você sinta, o que não existe nem faz sentido, dentro de você.

Obs: Não se trata de explanações sobre situações de bullying, racismo nem abuso moral, pois, nesses casos, combatemos com denúncias e repreensões aos ofensores. E, quanto ao meu cabelo, eu fiz as pazes com ele, hoje, simboliza força e presença. 💁🏻

O que você tanto esconde?

Hoje, li um texto do Nelson Mandela – “Brilho inconsequente” – que ecoou dentro de mim. E, a partir dele, me veio essa pergunta.

O texto fala que o nosso maior medo não é de sermos inadequados nem ignorantes, mas sim, da nossa sabedoria. E defende que não há nada de iluminado em se diminuir para que outras pessoas não se sintam inseguras perto de nós. Parte do pressuposto de que todos têm luz dentro de si e, quando a deixamos brilhar, ela libera outras pessoas a brilharem também.

Aliás, como essa falsa modéstia pode ser sinônimo de elevação espiritual. Ou melhor, como podemos equivaler a sabedoria ao desmerecimento de si e dos outros. Primeiro, por não se poder demonstrar o seu valor, ou ao menos ter, e, segundo, por não ver no outro. Isso não me parece nada evolutivo, muito menos gentil, mais se aproxima de um sadomasoquismo, usando-se de autoenganos e falsidades.

Eu já caí nessa armadilha e não foi nada bom pra mim nem para as pessoas ao meu redor, ainda criança percebi que tinha facilidade para fazer conexões com assuntos diferentes. Mas por influências cristãs, criei a crença de que não poderia ficar mostrando isso. Acabei por pôr em dúvida essa habilidade e a alimentar preconceitos por quem o fazia, gerando uma sensação de superioridade por não fazê-lo.

Nossa, quanta distorção e como isso atrasou a minha vida. Esconder uma aptidão, dá mais trabalho do que falsear ter uma. Só que chega uma hora ou você expande ou colapsa. Optei por expandir. E, impressionantemente, quando você começa a mostrar-se mais verdadeiramente, você convida o outro a também se revelar.

E não há porque se preocupar com inveja nem em representar ofensa ao outro, quando feito com amorosidade. Pelo contrário, inspira quem está por perto, sem ser tomado por inseguranças, desde que perceba potencialidades em todas as pessoas e tenha a compreensão de que a luz de um se soma à luz do outro, gerando pertencimento e maior alcance, ao invés de ofuscamentos.

Você usa gatilhos mentais?

Assisti a um vídeo esta semana sobre gatilhos mentais e fiquei impressionada, pelo quanto que manipulamos e somos manipulados, incitando as inseguranças e carências humanas, para que seja tomada a decisão favorável ao maior interessado.

Você já reparou que ao quererem persuadi-lo, muitas das vezes, usam expressões como: “Só existem x número de vagas e quando acabar, você perdeu”; “Inscreva-se e fará parte deste grupo seleto”…

Preste atenção, como esses argumentos são baseados em nosso medo de escassez, necessidade de pertencimento, desejo de se sentir especial. Ativando um comportamento inconsciente, impulsivo e, na maioria das vezes, imaturo, por nos remeter às nossas vulnerabilidades e as vivências da infância, afinal de contas, atua na área mais primitiva do nosso cérebro.

Então, não se trata de um consumo consciente, você toma uma decisão que aparentemente entendendo como sendo racional, mas é simplificada por esses gatilhos.

Isso me levou a grandes reflexões sobre a forma como divulgo o meu trabalho, pois esse tipo de recurso não combina com a minha proposta de convite à ampliação da consciência, e mesmo não tendo essa intenção de me beneficiar da inconsciência das pessoas, se não prestarmos bastante atenção, acabamos adotando muitas dessas expressões por tabela, devido já estarem tão naturalizadas em nossas relações.

E quando usamos conscientemente, na maioria das vezes, é pautado também no nosso medo, do fracasso, por exemplo. Daí, apelamos. Então, o melhor é revisitar as nossas crenças e sentimentos, que habitam atrás desses mecanismos de convencimento.

Essa mesma ideia também pode ser empregada em relacionamentos amorosos, hierárquicos… Podemos nos utilizar desses “impressionadores”, nas mais variadas formas e situações, em maior ou menor escala, mas quando nos atentamos para o seu uso e suas motivações, nos desencantamos e podemos escolher privilegiar a autonomia do outro e usufruir  da nossa autoconfiança.

O que você aprendeu com o seu pai?

Hoje, dia dos pais, me veio essa pergunta. Nesta fase da vida consigo identificar claramente o maior ensinamento que o meu pai me proporcionou. Na convivência com ele, percebendo os seus atos, compreendi o sentido de ser Leal.

Pai, você sabe ser leal como ninguém! Leal ao que acredita e às pessoas a quem se vincula. Aprendi com você a tentar ser coerente e a assegurar às pessoas de meu convívio, que quando me comprometo é de verdade, pode confiar.

Acredito que o aprendizado está sempre disponível, principalmente, quando se trata da nossa relação com os pais, isso engloba as paternidades presentes e ativas na educação dos filhos, como as ausentes, seja por escolha ou por falta dela, percalços da vida.

Conhecer a história dos nossos pais é muito importante para compreendê-los e nos entendermos. As vivências deixam marcas e impõem crenças, então não é à toa cada comportamento. E a ação deles remontam à nossa, seja na identificação ou na diferença.

Faz um tempo que decidi acolher a minha história familiar e a ter mais contentamento na relação com o meu pai, e posso dizer que ampliou enormemente as possibilidades de crescimentos pessoais e me trouxe ainda mais força para a vida.

Obs.: Na foto, sou eu e o meu pai, no meu aniversário de 3 anos. 🙂